A solidão maior
A que fere, a pior
É estar ao lado de alguém
Não significar nada
E, estando acompanhada,
Afinal não ter ninguém.
Maria Ivone Vairinho
(Livro da Dor e da Esperança)
A solidão maior
A que fere, a pior
É estar ao lado de alguém
Não significar nada
E, estando acompanhada,
Afinal não ter ninguém.
Maria Ivone Vairinho
(Livro da Dor e da Esperança)
Em teoria
Em abstracto
Difícil de entender
Na prática
Quando vivida
Fácil de perceber.
Quando o segundo é dor
Dura uma eternidade
A hora é um segundo
Quando é felicidade.
Maria Ivone Vairinho
(Livro da Dor e da Esperança)
Quando a Morte me tocou
Meu grito de dor
Em canto se mudou.
O cisne que em mim dormia
Sentindo a vida fugir
Com o bico rasgou-me o peito
E começou a cantar
No verso de um poema.
Maria Ivone Vairinho
(Livro da Dor e da Esperança)
Como foi Job eu não sou
Nem tenho a fé de Abraão
Náufrago que em mar vogou
Sem tábua de salvação.
Não grito não esbravejo
Nem costumo me queixar
Mas tenho dentro do peito
Lágrimas mil por chorar.
Pela angústia dominada
Neste futuro adiado
Há medo que me tortura
E não desejo mais nada:
Que de mim seja afastado
O cálice da amargura.
Maria Ivone Vairinho
Medo irracional do vazio
Que nos gela, nos faz frio
Nos seca a boca
E deixa a cabeça oca.
Medo do que não sabemos
Do muito que nós tememos.
Quando a angústia
Visitar me vem
Eu fico enovelada
Na posição fetal
Como se regressada
Ao ventre de minha Mãe
Eu ficasse intocada
Nada me fizesse mal.
Maria Ivone Vairinho
Ser poeta
É bênção
É maldição.
Num desassossego
De inquietação
Na carne sofrer
Dos outros a dor
A alma desnudar
Sem falso pudor.
Num só verso
Condensar o Universo.
Em cada madrugada
De corpo despido
Abertas as veias
Deixar jorrar
A dor sublimada.
Para ser feliz
Precisar de nada.
Maria Ivone Vairinho
(Livro da Dor e da Esperança)
Um livro de poemas de Maria Ivone Vairinho.
A Maria Ivone é da minha terra e tinha gosto em que eu escrevesse umas palavras na abertura deste livro, o que faço com imenso prazer.
Acho que todos nós temos que ter pelo menos um interlocutor. Tem que haver alguém a quem dêmos conta do mais profundo de nós próprios porque é aí que se passa o que há de essencial nas nossas vidas. As pessoas nem sempre se dão conta que vivemos a nossa vida referida a um dia a dia sem interesse nem qualificação e que aquilo que em nós é importante: a alegria e a tristeza, a solidão e a fé, a angústia e a esperança, além de todo o fantástico poder dos sentimentos, tudo isso se passa dentro de nós sem termos ninguém a quem comunicar. No entanto, é isso que toca o fundo da nossa alma e que, afinal, marca a nossa condição humana: é através de tudo isso que podemos fazer a nossa comunicação com os mistérios que nos alimentam e confortam.
A Maria Ivone escolheu a poesia como a grande companheira da sua vida e, ao comunicar com os seus versos as emoções que sentiu e vai sentindo, ela se irmana com todos aqueles que, muitas vezes na solidão, vivem idênticas situações da alma. É por isso que muitos se irão projectar na sua poesia: ela toca aquilo que em nós há de mais sério e que muitos têm que guardar por falta de interlocutor.
Por isso creio que, havendo outras formas de poesia, esta tem a substância da nossa humanidade e o condão de nos fazer aproximar uns aos outros que é, muito possivelmente, o destino para o qual a pessoa humana foi feita. Este livro da Maria Ivone é um bocado da sua alma que ela quis partilhar connosco.
Lisboa, 14 de Setembro de 1999
António Alçada Baptista