Folhas Soltas do Meu Diário

16
Abr 10

 
A solidão maior
A que fere, a pior
É estar ao lado de alguém
Não significar nada
E, estando acompanhada,
Afinal não ter ninguém.
 
Maria Ivone Vairinho
(Livro da Dor e da Esperança)

 

publicado por mariaivonevairinho às 19:17
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Em teoria
Em abstracto
Difícil de entender
Na prática
Quando vivida
Fácil de perceber.

Quando o segundo é dor
Dura uma eternidade
A hora é um segundo
Quando é felicidade.
 
Maria Ivone Vairinho
(Livro da Dor e da Esperança)

 

publicado por mariaivonevairinho às 19:11
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06
Mar 10


Quando a Morte me tocou
Meu grito de dor
Em canto se mudou.


O cisne que em mim dormia
Sentindo a vida fugir
Com o bico rasgou-me o peito
E começou a cantar
No verso de um poema.

 

Maria Ivone Vairinho

(Livro da Dor e da Esperança)

publicado por mariaivonevairinho às 17:24
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Como foi Job eu não sou
Nem tenho a fé de Abraão
Náufrago que em mar vogou
Sem tábua de salvação.


Não grito não esbravejo
Nem costumo me queixar
Mas tenho dentro do peito
Lágrimas mil por chorar.


Pela angústia dominada
Neste futuro adiado
Há medo que me tortura
E não desejo mais nada:
Que de mim seja afastado
O cálice da amargura.

 

Maria Ivone Vairinho

publicado por mariaivonevairinho às 17:18
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17
Fev 10
      - Oh, perdão, minha senhora!... Queira desculpar.
      Maria Isabel sorriu abertamente.
      Chegada há pouco à capital, ainda não aprendera aquele sorriso frio que nada diz e via em muitos rostos; ainda não adquirira o ar superior, meio desdenhoso, com que a maioria das raparigas recebia desculpas daquele género.
      Como era franca e sincera não podia compreender que houvesse uma intenção num empurrão, numa pisadela - eram empurrões, pisadelas, única e simplesmente.
      Sorriu e os olhos sorriram também.
      - Não teve importância.
      Olhou através dos vidros do eléctrico. As ruas animadas eram uma distracção para quem, como ela, estava habituada a ver ruas vazias, sem pessoas — mas que, por estreitinhas, pertenciam a quem nelas passava.
   Ali, todos se atropelavam, se acotovelavam. Era impossível que todos tivessem pressa. O ritmo, a velocidade infiltrara-se dentro deles e era preciso correr para se ter a ilusão da vida vivida.
   Para ela, que estava fora de tudo isso, simples espectadora, era engraçado apreciar, analisar as reacções dos indivíduos perante os pequenos nadas.
   - Perdoe... — e os dedos quentes desfizeram a pressão sobre os seus.
   Os olhos sorriram, a boca distendeu-se.
   - Não teve...
   Uns olhos negríssimos, os mesmos de há pouco, olharam-na interessados e insolentes.
   Sentiu o rosto afogueado.
 - Estes eléctricos são tremendos. Vamos positivamente como sardinha em lata.
      Agradou-lhe o olhar quente, o rosto varonil, a figura alta e forte.
      -Agora é a hora de maior movimento...
     A voz era cálida, o sorriso doce.
     Emanava dele um ar de segurança que dispunha bem.
   E deixou que ele falasse, que a ajudasse a descer na paragem, que a acompanhasse ao emprego.
***
   A cidade era bela, grandiosa.
   Vista na companhia dele tinha mais encanto.
   Esperava-a, acompanhava-a, tomava-lhe o braço; dizia-lhe coisas de sonho.
   Era o amor que surgia.
   E apetecia-lhe cantar, gritar bem alto a sua alegria de viver.
***
   - Gosto de ti, Isabel.
   Em baixo, a Fonte Luminosa, em cima milhões de estrelas, junto dela, o céu...
   As mãos subiram suavemente pelo seu rosto numa carícia toda, feita de ternura.   Como era feliz!
   Apertou as mãos entre as suas e encostou-lhe o rosto.
   O céu fugiu, a fonte escureceu, as estrelas apagaram-se.
   - Uma aliança.... Casado!
   - Mas ainda não tinhas visto? — e a voz era irónica, incrédula — Durante um mês tiveste tempo de sobra... Não faças drama... Isabel!
   A Alameda não tinha fim, o movimento aturdia.
   Só parou no quarto, não querendo escutar chamamentos, ouvir explicações.
***
   - Perdão, minha senhora...
   Um sorriso frio distendeu-lhe os lábios e voltou as costas.
   O movimento das ruas era enorme.
   Turbilhão!
   Remoinho!
   Sempre mais e mais!
   Que crescesse, que não parasse, que a arrastasse, que se infiltrasse dentro dela.
   A vida quer-se agitada, para não dar tempo a pensamentos.
 
Maria Ivone Vairinho
(conto publicado no n.º 188 da “Crónica Feminina” de 30 de Junho de 1960)
Maria Ivone Vairinho foi colaboradora desta revista desde 1957 a 1982
 
 
publicado por mariaivonevairinho às 13:34
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08
Fev 10

Medo irracional do vazio
Que nos gela, nos faz frio
Nos seca a boca
E deixa a cabeça oca.


Medo do que não sabemos
Do muito que nós tememos.


Quando a angústia
Visitar me vem
Eu fico enovelada
Na posição fetal
Como se regressada
Ao ventre de minha Mãe
Eu ficasse intocada
Nada me fizesse mal.

 

Maria Ivone Vairinho

publicado por mariaivonevairinho às 19:18
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06
Fev 10

 

 
O pessegueiro
Floriu no quintal
Rosa e branco numa orgia
O céu amanheceu
Anilado
Perfumado
As aves enamoradas
Em doce chilreada
Celebraram o novo dia.

O meu tronco
De raízes apodrecidas
Sentindo-se morrer
Os braços descarnados
Levantou
Bebeu o ar primaveril
Encharcou-se de tons de anil
E num suspiro murmurou:
— Que belo dia para viver!
 
Maria Ivone Vairinho
publicado por mariaivonevairinho às 18:30
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05
Fev 10

Ser poeta
É bênção
É maldição.


Num desassossego
De inquietação
Na carne sofrer
Dos outros a dor
A alma desnudar
Sem falso pudor.


Num só verso
Condensar o Universo.


Em cada madrugada
De corpo despido
Abertas as veias
Deixar jorrar
A dor sublimada.


Para ser feliz
Precisar de nada.

 
Maria Ivone Vairinho
(Livro da Dor e da Esperança)

publicado por mariaivonevairinho às 03:33
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01
Fev 10

Um livro de poemas de Maria Ivone Vairinho.

 

A Maria Ivone é da minha terra e tinha gosto em que eu escrevesse umas palavras na abertura deste livro, o que faço com imenso prazer.

 

Acho que todos nós temos que ter pelo menos um interlocutor. Tem que haver alguém a quem dêmos conta do mais profundo de nós próprios porque é aí que se passa o que há de essencial nas nossas vidas. As pessoas nem sempre se dão conta que vivemos a nossa vida referida a um dia a dia sem interesse nem qualificação e que aquilo que em nós é importante: a alegria e a tristeza, a solidão e a fé, a angústia e a esperança, além de todo o fantástico poder dos sentimentos, tudo isso se passa dentro de nós sem termos ninguém a quem comunicar. No entanto, é isso que toca o fundo da nossa alma e que, afinal, marca a nossa condição humana: é através de tudo isso que podemos fazer a nossa comunicação com os mistérios que nos alimentam e confortam.

 

A Maria Ivone escolheu a poesia como a grande companheira da sua vida e, ao comunicar com os seus versos as emoções que sentiu e vai sentindo, ela se irmana com todos aqueles que, muitas vezes na solidão, vivem idênticas situações da alma. É por isso que muitos se irão projectar na sua poesia: ela toca aquilo que em nós há de mais sério e que muitos têm que guardar por falta de interlocutor.

 

Por isso creio que, havendo outras formas de poesia, esta tem a substância da nossa humanidade e o condão de nos fazer aproximar uns aos outros que é, muito possivelmente, o destino para o qual a pessoa humana foi feita. Este livro da Maria Ivone é um bocado da sua alma que ela quis partilhar connosco.

 

Lisboa, 14 de Setembro de 1999

António Alçada Baptista

 
publicado por mariaivonevairinho às 19:15
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17
Jan 10

 

CALVÁRIO*
 
Quando eu morrer
Não se vistam de negro
Que essa não é
Nem nunca foi
A cor
Da minha dor
Do luto meu.
 
Roxo, sim,
É cor de dor
Para mim.
Roxo de lírios macerados
Pisados, esmagados.
 
Roxo do Senhor dos Passos
Dos passos vagarosos,
Vacilantes, dolorosos,
A caminho do Calvário.
 
Roxo violáceo
De Cristo crucificado
A dizer, a afirmar
Que a dor e o sofrimento
Servem para nos salvar.
 
Também tenho a minha cruz
Uma via não-sacra a percorrer.
 
E nos passos que vou dando
De mim própria vai ficando
Um pouco da minha carne
Um pouco do meu sangue
E os espinhos da dor
Com dor se vão cravando
Em todo o meu ser.
 
Maria Ivone Vairinho
(Livro da Dor e da Esperança - edição da Vega,publicado em Novembro de 1999, com prefácio de Alçada Baptista)
 
* Escrito em Setembro de 1992, quando me foi diagnosticado um cancro, e as palavras dos meus Poetas predilectos não chegavam para mitigar a minha angústia.
 
Que seja lido como um poema de esperança,  por quem se encontrar na mesma situação, hoje dia 17 de Janeiro de 2010, quando já passaram quase 18 anos.
 
Maria Ivone Vairinho
publicado por mariaivonevairinho às 04:05
sinto-me: em paz comigo própria
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